Diário: Porque ardes, Atenas?
O povo saiu à rua. Um cenário quase apocalíptico tão preocupante quanto recorrente. Não há dinheiro na Grécia, nem nos bancos nem nos bolsos de ninguém. Corta-se cada vez mais: nos salários, no investimento, na própria esperança que ‘isto um dia ainda vá ao sítio’. Cada vez mais pobres, milhares gritam: que lhes tirem tudo menos a voz. 15 mil são encaixotados numa “reserva de trabalho” enquanto a taxa de desemprego sobe para as duas dezenas. Mais empréstimos, mais dependência. Um império milenar num fim trágico consumido em chamas.
80 mil em Atenas e 20 mil em Salónica correm para as ruas enquanto dezenas de deputados são expulsos dos seus próprios partidos. A oposição já não tem lugar no enorme buraco que é a Grécia: ou estão do lado da UE ou não estão, de todo. Aprova-se um documento que tudo privatiza, mas já nada pode ser feito para o evitar. A Grécia já não é mais Grécia mas uma província europeia.
E de que serve a revolta? De que serve o fogo, os gritos, a violência e o sofrimento? Bancos destruídos, mais de cinco dezenas de feridos, e no dia a seguir mais cortes e mais austeridade. O povo sangra em vão, ou assim aparentam os tempos que correm.
O berço do pensamento ocidental cai em ruínas, negligenciado por um Olimpo desaparecido, uma cultura desvanecida e uma Europa avassaladora. De planos feitos e assinados que já prometem um 2015 melhor, estarão os gregos dispostos a confiar neste prazo? Aliás, terão sequer hipótese de recusar fazê-lo? Qual será o futuro da Grécia?
André Abreu, editor. Escreve às segundas-feiras.





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