Diário: “Custe o que custar”
O ano que há menos de mês e meio se iniciou tem sido um verdadeiro fardo para as famílias portuguesas, mas também não tem sido de melhor memória para os líderes deste pequeno país à beira-mar plantado.
Primeiro foi o Presidente da República, Cavaco Silva, a queixar-se das baixas pensões que aufere, e que “quase de certeza não dá para pagar as minhas despesas”. Por falta de decoro ou mero lapso, Cavaco Silva perdeu o crédito que havia acumulado como garante da estabilização da relação entre o Governo e a sociedade numa altura de crise.
O erro valeu-lhe o repúdio do povo pela manifesta ausência de solidariedade e respeito pelas crescentes dificuldades que cercam os lares portugueses.
Com o tempo, os animos serenaram, mas eis que surge o primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, a aconselhar os portugueses a serem “menos piegas”, poucos dias depois de asseverar que o acordo com a troika será cumprido, “custe o que custar”.
Numa altura em que a maioria dos portugueses luta por uma vida minimamente digna, em condições de extrema adversidade, as palavras de ambos os líderes, com um reduzido hiato temporal, ameaçam tornar-se no rastilho que faltava para a situação social “insustentável” ou “explosiva”, expressões outrora invocadas pelo Presidente da República.
Se os portugueses aceitaram as medidas que lhes impuseram como uma inevitabilidade, com simbólicas e inconsequentes presenças na rua, os discursos dos principais líderes são o combustível perfeito para transformar a pieguice nacional num conflito social de resultados imprevisíveis.
Se tal acontecer, então os comandantes dos destinos nacionais só têm de se culpar a si próprios pelas consequências, por terem subestimado a paciência dos portugueses, que vivem, cada vez mais, num ambiente selvagem, de salve-se quem puder, “custe o que custar”.
Ricardo Miguel Vieira, editor. Escreve aos sábados.





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