O Ópio de novo
O país do futebol acordou em choque. “Sporting em falência técnica”, lê-se em letras garrafais. Apetece-me perguntar: E notícias? A notícia não é o Sporting estar falido, isso já toda a gente sabia, a notícia é o Sporting ter saído do armário. Uns assumem, outros assobiam para o lado. Isto por cá é tudo muito bom de contas até à véspera de pedir emprestado.
O Sporting virou uma espécie de Portugal dos pequeninos. As contas estão à vista, os responsáveis é que nem vê-los. Num sítio bem frequentado alguém teria de responder pelos 183 milhões de euros que faltam. Mas ninguém sabe, ninguém passou por lá. Se o Sporting vender tudo o que tem e pagar tudo o que deve, ainda faltam 183 milhões. Isto não pode ser só má gestão.
A vida do Sporting é a vida do país em miniatura. Noutra escala: a vida do Sporting é a vida do futebol português. Honra seja feita ao clube de Alvalade. Ao assumirem-se, os leões abriram a reflexão sobre a sustentabilidade do futebol num país falido. Mas ninguém quer discutir. Quando o coração vibra, a cabeça não pensa. Parece que a crise chegou a todos menos ao futebol. Os homens da bola ainda gozam com a cara do Estado, que é como quem diz com os bolsos de todos nós, e insistem em não pagar os 30 milhões de euros que devem ao fisco. Pedem mais dez anos para saldar uma dívida que já foi negociada em 1999. Passaram 13 anos. E como se não bastasse, os devedores, à boa “maneira tuga”, continuam a comprar jogadores de milhões, quais televisores de último modelo, computadores e telemóveis a crédito. Não há vergonha.
Os portugueses têm os clubes, o futebol e o país que merecem. Quando da Luz e das Antas chegam risos e críticas à exposição pública das contas do Sporting, está tudo dito. Manuel Serrão, conhecido adepto do F.C.Porto, chegou a insinuar num programa de televisão que o Sporting pecava, imagine-se, por excesso de transparência. “Uma coisa é estar falido, outra coisa é assumir nos jornais”. Não foram estas as palavras exactas, mas foi esta a ideia. Acho que estamos conversados. Faz lembrar aquele episódio dos dois carecas à luta por um pente. Começa por ser cómico, acaba a ser ridículo. Podem todos bem com a careca uns dos outros. Ainda ninguém percebeu que o hoje dos outros é o seu amanhã. Enquanto a bola rolar, e entrar, ninguém questiona.
Mas de onde é que vem o dinheiro para sustentar o futebol num país falido? Num país em recessão (sabe-se lá até quando), com um desemprego galopante (sabe-se lá até onde) e empresas a fecharem todos os dias, de onde vem o dinheiro que faz a bola rolar? De onde virão as receitas para fazer face a este nível de despesa? E a banca? Como é que a banca, com a corda na garganta, aguenta tamanha loucura? O meu pedido é sincero: expliquem-me isto como se ninguém gostasse de futebol.
O jogo está partido, só não vê quem não quer. Dentro de dias vão multiplicar-se as notícias sobre os clubes com ordenados em atraso, ameaças de greves, jornadas adiadas. Se não acorda a bem, o futebol arrisca-se a morrer afogado num balde de água fria.
O Sporting deve aproveitar o choque para fazer os sócios e adeptos, pelo menos os seus, reflectirem sobre tudo isto. A austeridade é inevitável num clube onde o presidente conta os cêntimos todos os meses para pagar salários. Mas é preciso mais. É preciso austeridade, visão e verdade.
A auditoria é um exercício de transparência. Verdade. Mas a auditoria não explica tudo. Falta explicar, por exemplo, porque é que o Sporting contrata uma directora de comunicação em Abril e outro menos de seis meses depois. Estão lá os dois. Isto não é só um mau princípio e um péssimo sinal, é má gestão. Pior: é imoral num clube falido.
Quero a verdade. Toda a verdade. O Sporting tem de mudar de vida. Prefiro lutar com os miúdos pela Europa do que ver nascer um Boavista no Campo Grande. Por mais que custe, por mais que doa, é essa a escolha que temos entre mãos: ou mudamos de vida, ou deixamos morrer o Sporting. Eu já escolhi. Está na hora de mudarmos a forma como olhamos e vivemos o clube.
O Sporting tem todas as condições para ser agente de mudança no futebol português. Não há melhor escola de formação neste país. É possível rentabilizar os talentos da Academia, basta que não voltem a vendê-los ao desbarato. É possível ver bom futebol em Alvalade sem encher a equipa de estrangeiros de valor duvidoso. Olhem para o grupo dos juniores liderado pelo Sá Pinto. Façam um levantamento dos grandes jogadores que o Sporting tem por aí emprestados no Olhanense, ou na Académica, por exemplo. Isso é o Sporting. Tem de ser o novo Sporting.
É possível amar o clube, encher o estádio e viver o mundo verde-branco, aceitando que não é possível lutar pelo título enquanto outros tiverem outras armas, outras fontes. Vai chegar o dia em que também eles terão de sair do armário. O dinheiro não estica, mesmo quando parece feito de borracha.
O Sporting é um clube diferente. Está na hora de assumir essa diferença, mudar de vida e fazer o futebol português ganhar juízo.
Declaração de interesses: este texto foi escrito, ao abrigo do antigo acordo ortográfico, pelo sócio número 745 do Estoril-Praia e 26.880 do Sporting Clube de Portugal.





fotografias © Mariana Jeca / CLIQUE

Para não variar muito, gostei do teu artigo, ou deverei dizer…reflexão…
Mas deixa-me acrescentar apenas um pormenor. O Sporting é uma estrutura muito grande, com centenas de profissionais que lá trabalham…eu até costumo dizer que é uma multinacional…mas isto apenas para dizer que neste universo, existem o Sporting (clube, modalidades amadoras, estádio…) e o Sporting SAD, entidade profissional do Sporting para o futebol. Não vejo que a existência de dois responsáveis na área da comunicação, cada um com responsabilidades perfeitamente assumidas e diferenciadas seja “um mau princípio e um péssimo sinal, é má gestão”. De resto, concordo contigo em tudo…