Gentes do meu sofá

23/10/2011 por

Gentes do meu sofá

Tem sido quase tudo a quente desde que me conheço. Como se houvesse um grito para soltar preso nos dedos. É assim que gosto de escrever: a quente, sempre a quente. Talvez porque escrevo como vivo. Talvez porque há homens que nunca crescem, pelo menos enquanto escrevem. É o coração na ponta dos dedos.

Está justificado o rótulo da coluna. Vamos lá.

Cresci no meio de conservadores. Gente que enche a boca para dizer “pretos” e “paneleiros”, como se assim estivesse tudo dito. Cresci pouco, ali, a ouvir nas ceias de Natal que as manifestações são coisas de comunas, essa trupe de preguiçosos que quer viver à conta de quem trabalha. Aprendi a ver as “manifs” na televisão com bolinha no canto e a sonhar com palavras de ordem. Sonhava com a luta. Na escola sempre fui o líder da revolta. “Ele tem é um grande sentido de justiça”, justificou à minha mãe a professora de Língua Portuguesa do sétimo ano. Tretas. A justiça é outra coisa. Eu gostava mesmo era de fazer as coisas a quente.

Passaram alguns anos. Tinha dezassete. Peguei em duas cartolinas e fui ali para a frente da Maternidade Alfredo da Costa exigir que ajudassem o povo de Timor. Gritei pelo SOS da ONU, pedi a compaixão dos Americanos, lancei as mãos ao céu: não massacrassem mais aquela gente. Fui sozinho. Éramos milhares nessa tarde, como hoje do Marquês a São Bento. Indignados, também, a perceber que nos gritos da revolta jogava-se a vida de um povo. Tão actual. Já lá vão doze anos.

Voltei para casa cidadão. Senti que tinha tomado o destino do mundo nas mãos. Percebi que a luta e a esperança são coisas indissociáveis. Enterrei a cabeça no vidro do comboio e naqueles trinta minutos até cascais não senti uma única vez que as coisas continuariam iguais. Hoje, 15 de Outubro de 2011, foi diferente.

As pessoas arrastam-se até São Bento num bocejo de palavras de ordem: “O povo já cá está, saiu do sofá”. O pior é que o povo está na rua, em protesto, como no sofá: tira fotografias, vê fotografias, lê jornais, come gelados, bebe minis, ouve música e baixa a cabeça. Deixa-se ir. Os gritos saltam da garganta e não do peito. Gritar e acreditar são coisas diferentes. As pessoas deixaram de crer, verdadeiramente, que podem mudar o rumo da história. O espaço público, se é que existe, foi assaltado pelos políticos de plástico que os media fabricaram e pelos partidos. Não sobra espaço. Talvez por isso, do Largo do Rato até São Bento, sente-se o cansaço no alcatrão. Misturam-se agendas, políticas e menos políticas. Porque não há movimentos puros, nem o 12 de Março. O 15 de Outubro é diferente. Claro que é. Desta vez a direita cornuda não saiu à rua e a esquerda deixa-se encabeçar pelos eternos marchantes contra o capital. A mesma minoria que horas mais tarde acabaria por aprovar, em Assembleia Popular, a nacionalização da banca. Patetices.

Fecho os olhos. Passo a passo, lá vou mergulhado na massa. Recordo que o essencial é estar na rua com a minha agenda: há outro caminho, toca a renegociar as parcerias público-privadas, chega de castigar os mesmos. Repito mas não acredito. Mais um a acreditar pouco que alguém oiça os gritos do povo enquanto o povo só gritar. Com o passar das horas sinto crescer uma coisa cá dentro. Vou engolindo ao ritmo dos tambores. Os jornalistas que encontro pela rua, fora de serviço, nenhum veio participar: vieram todos “ver”. Eles adoram ver. Ficam na berma. É aí que a maioria dos jornalistas deste país vira estrela. Depois, é vê-los a utilizarem a carteira profissional para terem acesso ao topo da escadaria da Assembleia da República. Tudo por uma visão VIP sobre a “manif”. Uma espécie de camarote para quem não foi trabalhar, mas finge.

Quando olho para o relógio já passa das cinco e um quarto. Sento-me na relva, do lado esquerdo para quem está de frente para a Assembleia, e sob o olhar ternurento de alguns polícias mais agitados, disparo: “Taxem a relva também”. Não. Não era isso que trazia preso na garganta. Silêncio. E o silêncio na luta é perigoso. Respiro fundo e peço a atenção do Bernardo, amigo e companheiro de combate. Dou corpo à voz, acerto o tom, aumento o volume: “Amigo, isto só lá vai à porrada”.

Agora mais a frio. O povo não mudou, eu é que tinha dezassete anos.

 

 

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