A casa é nossa

11/12/2011 por

A casa é nossa

Os portugueses aprenderam a divertir-se com a ignorância e a falta de vergonha dos políticos. Mas o país não é a casa dos segredos. Pudéssemos nós votar para esta gente sair e desaparecer para sempre. Infelizmente, o máximo que nos é permitido é deixá-los no alpendre, uma espécie de Paris para os menos dados às filosofias.

Dentro da casa, que a tal Cátia não saiba onde fica o Brasil, ou a Índia, é um problema dela. Que o ex-primeiro decore os manuais e seja incapaz de ver além é um problema nosso, qual secretário de Estado da juventude que aponta a porta da rua como solução para as angústias dos jovens do seu país.

Alexandre Miguel Mestre é a Cátia do Governo. Confesso que ainda duvido que a algarvia pense que o Brasil é um país africano. Já o secretário de Estado temo que tenha dito exactamente o que pensa. Se assim já é difícil garantir a sustentabilidade do nosso modelo social, o que será dele sem aqueles que lhe garantem o sustento? Já não bastava a ameaça da demografia…

Alexandre Miguel Mestre quis dizer que este país é para velhos. Mentira. Nem para velhos. Basta olhar para o Orçamento do Estado para 2012 e ver o que acontece, por exemplo, às pensões de 500 euros. O governo exige aos velhos que paguem e aos novos que fujam. É a regra da casa. No Alpendre, estão os outros.

Teixeira dos Santos fala do desequilíbrio das contas públicas com o mesmo à vontade com que Susana, outra concorrente, confessa que pôs um litro de silicone em cada peito. Há uma diferença: as mamas são dela, o dinheiro é nosso. Susana dribla o espelho e vê um problema estético. Teixeira dos Santos não larga o espelho. O antigo ministro das Finanças é contra a eventual criminalização dos políticos por gestão danosa das contas públicas. Susana também deve achar absurdo limitar o volume da caixa torácica de litro e meio.

No outro lado do Alpendre, Basílio Horta toma a palavra para acusar o ministro da Economia de ser o ministro do desemprego. É uma espécie de Marco, o pasteleiro da casa. O deputado do PS, ex-presidente da AICEP na era de Sócrates, responsabiliza este Governo com a mesma displicência com que Marco, de globo na mão, explica a Cátia que a Índia é, afinal de contas, um país da Oceânia. Basílio Horta e Marco acreditam que uma mentira repetida com convicção é quase verdade. O pasteleiro crê por ignorância, o deputado do PS faz de conta que acredita. Os 12,6 % de taxa recorde de desemprego durante a governação de José Sócrates ridicularizam qualquer palavra de Basílio Horta. É como ouvir Marco dar aulas de geografia.

Os números estão para os políticos como os continentes para os jovens da casa: nunca estão onde deveriam estar. Desviam-se.

Sobra Paulo Campos, qual Fanny. O ex-secretário de Estado das Obras Públicas apresenta-se na comissão parlamentar como a emigrante no confessionário. O país inteiro vê Fanny caída de amores por João Mota, mas a menina de Oliveira de Azeméis diz que só tem olhos para o namorado. Paulo Campos jura que as parcerias público-privadas da governação Sócrates “não representaram um euro de encargos para o Estado”, o país inteiro dá de caras com os números. Só entre 2008 e 2010, e tendo em conta dados Direcção-Geral do Tesouro e Finanças, os encargos líquidos do Estado com as PPP quase que triplicaram, de 475 milhões para 1.128 milhões de euros, mais 20% do que o previsto com as novas parcerias lançadas.

Paulo Campos e Fanny negam a realidade com a certeza de que essa realidade  é aquilo que forem capazes de fazer com ela. Fanny faz prova com o anel de noivado. Paulo Campos apresenta um estudo da KPMG que a própria consultora desmente horas depois. Será que o anel da emigrante é pechisbeque?

Estou cansado das regras desta casa. Fartei-me de ver esta gente jogar, brincar e perder a vergonha na minha cara. Já não quero agarrar-me ao telefone na ânsia de ver sair este, ou aquele, e respirar de alívio quando um deles bate a porta. Quem fica não acrescenta. Exijo novas regras. Ou passamos, nós cidadãos, a ser a voz da casa, ou arrombamos a porta.

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3 Comentários

  1. Maria Rodrigues

    Muito bom…

    `E disto que precisamos, de alguem que mostra como o pais esta,sem pudor,sem papas na lingua e sem medo de mostrar a cara!!

    Parabens pelo artigo.

  2. João Eduardo Vargas

    Deixo os meus parabéns ao Filipe Mendonça pelo seu texto.Um texto lúcido e que caracteriza como o nosso pais está. Mais uma vez os meus parabéns.

  3. Filipe, parabéns pelo artigo.
    Pena que a Comunicação Social (toda) não veja que cada vez mais pactua com os poderes instalados. Se antes ajudaram a conquistar a Democracia, porque não fazem nada agora para a proteger?

    Quando te leio só tenho vontade de chorar pelo muito que conquistámos para as novas gerações e elas deixaram-se acomodar a ponto de só lhes restar chorar pelo leite derramado.

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