Cinema made in Denmark
Crise. Foi, provavelmente, a palavra mais usada em Portugal e na União Europeia em 2011 e serve de justificação para o fim do Ministério da Cultura português e dos cortes nos financiamentos às artes. No entanto, a Dinamarca, cuja área e população são metade das portuguesas, consegue ser dos países mais relevantes na produção cinematográfica europeia graças ao seu investimento nas crianças e nos jovens.
Henrik Bo Nielsen, diretor do Det Dansk Filminstitut (Instituto de Cinema Dinamarquês), explica que no início da década de 70 o governo dinamarquês determinou como essencial os apoios à cultura. Nos anos 80, foi aprovada a lei que determina que um quarto do subsídio atribuído ao cinema destinar-se-ia a actividade e produções focadas na camada mais jovem da população. «Mesmo que parássemos amanhã de subsidiar filmes, os cinemas continuariam cheios. É importante que os cidadãos tenham a possibilidade de ver as suas vidas, a sua história, os seus desafios, em narrativas cinematográficas originais que lhes vão ser contadas na sua própria língua e num ambiente que reconhecem, então é diferente.» diz Bo Nielsen.
Anualmente, na Dinamarca, vendem-se cerca de 13 milhões de bilhetes para as 162 salas do país, numa média de 60 espectadores por sessão. Dentro dos vinte filmes mais vistos, o número de produções dinamarquesas oscila entre 5 e 8, dependendo dos anos. O Estado financia uma média de 25 longas-metragens e de 30 documentários; a média do orçamento por filme é de 2,5 milhões de euros, e o Estado financia-os, em média, em cerca de 33%.
Por cá, segundo o Anuário 2010 do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual), foram vendidos 16,5 milhões de bilhetes; foram produzidos 16 documentários, 18 longas-metragens, 13 curtas-metragens, 10 curtas de animação e 3 séries de animação. Das 60 produções nacionais estrearam-se 22 longas-metragens (dos géneros documental e de ficção), porém nem sequer figuram no top dos quarenta filmes mais vistos. O mercado cinematográfico dinamarquês, incluindo exibição em sala e no serviço público de televisão, tem cerca de 22% de filmes nacionais. Em terras lusitanas, segundo o ICA, a percentagem é de 2,5%.
Bo Nielsen afirma que tal adesão é justificada não só pela qualidade do cinema dinamarquês, mas também pelo «talento» e pelo «gosto» da nação. «A ideia, em toda a Europa, é que todos querem ter a possibilidade de contar a sua própria história. Um facto importante é que os cidadãos dinamarqueses que actualmente financiam os filmes através dos impostos, também usufruem deles, como mostram as estatísticas» diz Bo Nielsen.
A garantia da qualidade do cinema dinamarquês torna-se óbvia ao mencionarmos que em 2011, Hævnen (Num Mundo Melhor), de Susane Bier, recebeu um Globo de Ouro e um Óscar de melhor filme estrangeiro; no Festival de Cannes, Melancholia, de Lars von Trier, arrecadou o prémio de melhor interpretação feminina (Kirsten Dunst) e Drive, de Nicolas Winding-Refn, o de realização. Em 2010, o documentário Armadillo, de Ronnie Fridthjof, recebeu o Grande prémio da Semana da Crítica. Este ano, Superclásico, de Ole Christian Madsen, uma comédia sobre o divórcio e outros problemas familiares, já se encontra na lista de pré-nomeados para os Óscares.
Dentro do panorama do cinema dedicado aos mais jovens, Kidnappet de Vibeke Muasya, obteve dois elefantes de Ouro no Festival de Hyerabad, enquanto em 2010, no Festival de Zlín (República Checa), o prémio mais antigo para este tipo de cinema, Karla og Jonas, de Charlotte Sachs Bostrup, obteve o Prémio Dom Quixote e Storm, de Giacomo Campeotto, o prémio The Golden Apple.
Portugal parece não pertencer a esta «toda a Europa» a que o director do Instituto do Cinema Dinamarquês se refere. Em 2011 extinguiu-se o Ministério da Cultura, agora dependente do Primeiro-Ministro. A opinião de Francisco José Viegas, secretário de Estado há quase seis meses, é de que «não é pelo facto de haver ministério que há cultura». Defensor de uma reorganização do modo como é a cultura organizada, deseja rever «o papel do Estado na vida cultural». Neste momento decretou o património (com 36 por cento do orçamento, ou seja, 60,96 milhões de euros) e o apoio às artes (27 por cento, que equivalem a 44,32 milhões de euros) como «grandes prioridades e opções estratégicas», num orçamento total de 200,6 milhões de euros.
Como na maioria dos sectores, o orçamento de 2012 destinado à cultura é «de cortes, um orçamento de excepção, um orçamento reduzido». «Estamos a adaptar-nos a orçamentos de crise, uma realidade a que não podemos escapar», disse. O secretário de Estado da Cultura expôs uma proposta de lei orgânica que permite poupar 2,6 milhões de euros, a partir da reestruturação das organizações dependentes do Estado.
Em evidência está o término da OPART – Organismo de Produção Artística em detrimento de uma nova estrutura a criar – o Agrupamento Complementar de Empresas – que fará a «gestão integrada» da Cinemateca, Companhia Nacional de Bailado e dos teatros nacionais São Carlos, São João e D. Maria II. Em simultâneo ocorrem alterações no património em museus, arquivos e bibliotecas, a serem cumpridas ainda este mês. Mais uma vez, o cinema não tem como escapar dos cortes aos financiamentos.
A razão do sucesso dinamarquês, em contraponto com o descalabro nacional, pode ser explicada pela atenção dada aos mais novos. O Estado investe muito dinheiro da Escola de Cinema Dinamarquesa, aumentando a competição no meio pelo número cada vez maior de realizadores formados. Aos que gerem os subsídios é dada toda a liberdade para aplicarem o dinheiro onde querem, mesmo que tal inclua filmes mais artísticos e não tão comerciais. «Se fizéssemos isso, o apoio iria quase todo para filmes de entretenimento familiar e de vampiros. Como em todos os apoios às artes, devemos focar-nos naquilo que o mercado não trata muito bem. Ter políticos que aceitem que empreguemos cerca de 1,5 milhões de euros num filme que muito pouca gente verá, desde que seja artisticamente interessante, continuará a fazer progredir o cinema.», diz Bo Nielsen.
A estratégia seguida para a divulgação dos filmes dinamarqueses passa pela exibição dos mesmos em circuitos comerciais em sessões para as escolas. São preparados programas, anualmente, para assegurar que todas as classes escolares têm acesso à experiência. À disposição dos professores (mas também dos pais) estão guias de estudo para que os filmes possam ser estudados. No seguimento do livre acesso ao cinema, são disponibilizados centenas de filmes na Internet pelo sítio gerido pelo Instituto. Bo Nielsen acrescenta o sentido de justiça social. Numa conjectura de crise poderão as crianças de classes mais baixas meio de ir ao cinema sem o apoio do Estado? Infelizmente, não.
Ao contrário daquilo que possa parecer, nem tudo está perdido. O Programa JCE/Juventude-Cinema-Escola foi criado, em Setembro de 1997, pela Direcção Regional de Educação do Algarve. A sua acção tem como objectivo aproximar as crianças e jovens do cinema, nacional e internacional.
De acordo com o ICA, Sangue do Meu Sangue, de João Canijo, foi o filme português mais visto nas salas de cinema nacionais em 2011 com um total de 20.262 espetadores, mais que Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz, e José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, presentes nos cinco filmes mais vistos em 2011.
À nossa juventude deveriam ser dadas armas para combater o futuro que a espera. Não seria a cultura, feita por portugueses e para portugueses, uma delas? Não deveria a criatividade ser permanentemente estimulada, em especial, em tempos de crise onde toda a imaginação é precisa? A distância que nos separa da Dinamarca e, quiçá, de outros países da União Europeia vai além da distância geográfica. É marcadamente cultural, afectando o desenvolvimento das mentalidades.





fotografias © Mariana Jeca / CLIQUE

Lindo!
Parabéns Helena Campos, muito bem escrito!
Parabéns, Helena. Tal como eu previa desabrochaste como uma flor. Não fui tua professora mas conheço-te desde miúda e tive o prazer de ver-te crescer. Sempre foste uma menina com objetivos claros e com valores elevados. Continua assim!
Felicidades no teu percurso académico e pessoal.
Muitos parabéns. Como colega de teatro das minhas filhas sempre tive um apreço por ti. Que tenhas muito sucesso!