A tragédia (da moeda) grega
À beira da bancarrota, a Grécia foi salva com um novo pacote de ajuda. A população teme um regresso à moeda antiga mas voltar ao dracma não é uma hipótese fora da mesa, como provaram as palavras da comissária europeia para as novas tecnologias, Neelie Kroes, que desdramatizou uma eventual saída da Zona Euro.
Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, rapidamente contrapôs que o lugar da Grécia é no Euro. Angela Merkel partilha a opinião: «não gostaria que a Grécia saísse do euro». Outra proposta passa por deixar que a Grécia, e Portugal, entrem em incumprimento dentro do Euro. É sugerida pelo colunista do Financial Times, Wolfgang Münchau, que defende a reconstrução dos dois países a partir da falência recorrendo a um fundo de resgate reforçado. A estas declarações das últimas semanas, juntam-se as da comissária europeia das pescas ao jornal grego To Vima. Citada pela RTP, Maria Damanaki (de nacionalidade grega) explicou que existem planos alternativos, de contingência, no caso de a Grécia sair da união monetária.
Poderá um destes planos significar que a emissão de dracmas está já a ser preparada? Citado pela BBC, Mark Crickett – consultor da De La Rue, empresa que fornece elementos para a cunhagem de moeda – aponta quatro meses como o prazo para planear a introdução de novas moedas e notas. Tratar-se-ia de um período de transição em que a moeda a deixar continuaria a ser utilizada, mas com um carimbo a identificar o seu novo valor.
O governo de um país que tencionasse pôr em marcha esta mudança não conseguiria fazê-lo em segredo, acrescenta Crickett. O clima de pânico – que faz lembrar a crise de 1929 – seria geral e geraria um notório risco de contágio a países como Portugal. Neste quadro, haveria uma corrida dos depositantes aos bancos para retirar o seu dinheiro antes da sua desvalorização com a nova moeda, explica o consultor. Os preços dos bens importados sofreriam fortes aumentos.
Ambicionando ver a luz ao fundo do túnel, a Grécia olha para o caso islandês. Depois de declarar bancarrota em 2008, a Islândia conseguiu fazer reformas, dar início à recuperação económica e reconquistar parte da confiança dos mercados, tendo a Fitch subido recentemente o rating para um nível acima do subinvestimento, ou «lixo» – tudo isto mantendo a sua moeda, a coroa islandesa.
O novo pacote de ajuda grego significa mais cortes em troca de 130 mil milhões de euros: no salário mínimo, nas reformas, no setor da saúde. Ainda que a austeridade esteja a arrasar a economia grega, os helénicos preferem continuar com o Euro, mostra uma sondagem recente citada pela agência Lusa*. Sinal de confiança do povo grego ou receio de entrar num caminho igualmente conturbado? Certo é que o retorno ao Dracma seria o golpe de misericórdia para uma nação à beira do precipício e para uma moeda fragilizada que pretendeu na sua origem simbolizar a união económica e política dos países europeus.
*Esta sondagem foi realizada pelo Instituto Marc e divulgada pelo jornal grego Ethnos. Foi realizada entre 15 e 17 de fevereiro e teve como amostra 1013 domicílios no país.





fotografias © Mariana Jeca / CLIQUE
